Ser introvertido é um defeito?

Ser introvertido é um defeito?

Há quem diga que sim, baseando-se no ditado: quem tem boca vai à Roma. Mas, ter o dom da palavra e da extroversão é algo realmente indispensável? Para Susan Cain, autora do livro ‘ O poder dos quietos’, a resposta a essas perguntas é um sonoro não.

Introversão e extroversão são polos do temperamento humano e cada um tem seus aspectos positivos e negativos. Entretanto, no mundo contemporâneo, tornar-se extrovertido virou meta de vida para muitos e poucos sabem o porquê disso.

Até o século XX, o estereótipo de grande homem dava-se baseado no caráter, ou seja, alguém sério, disciplinado e honorável. A vida interior valia muito. Não se considerava a capacidade de oratória, a quantidade de amigos, apertos de mão vigorosos ou performances teatrais com o objetivo de atrair a atenção de quem quer se seja. Porém, isso mudou: do caráter à personalidade. Os holofotes agora são para a persona dos gregos, a qual significa: máscara e que originou a palavra personalidade. E assim, a sociedade foi da vida interior à exterior em um passe de mágica. A primeira solidificada em cidadania, dever, trabalho, boas ações, honra, reputação, moral, modos e integridade, já a segunda em magnetismo, fascínio, impressão, atração, domínio, vigor e energia.

Nasce assim uma sociedade paradoxal, segundo Susan, em que todos tentam passar por cima dos outros, e que é, ao mesmo tempo, impiedosamente sociável. A ansiedade e a tensão são lugar-comum do nosso tempo, ambas geradas pela sensação de inadequação.

A ideia é: de que vale analisar algo que não se consegue expressar? Mas, ironicamente, pode-se expressar algo que não se consegue analisar? Socializar é normal, saudável e importante. Mas, não se pode tornar uma obrigação. Socializa-se por afinidade, vontade, conexão. Novos estudos comprovam que o excesso de colaboração mata a criatividade. Pensamento totalmente coerente, considerando-se que inspiração e criatividade ocorrem quando a mente encontra-se calma, relaxada e silenciosa. Ou Newton postulou a lei da gravidade em uma reunião tumultuada de brainstorming? E a cena da iluminação de Buda ocorreu em plena festa? Ambos encontravam-se centrados dentro de si.

Interação e reclusão devem ser utilizadas com moderação. Nem 24hrs cercado por pessoas, nem 24hrs isolado do mundo. O humano é um ser sociável que precisa de momentos de solidão. A proporção é ditada pela biologia introvertida ou extrovertida. Os introvertidos se energizam usufruindo de momentos calmos, silenciosos, como leitura de livros, meditação, trabalhos manuais. Entretanto, os extrovertidos se refazem com a troca entre pessoas, em ambientes estimulantes como jogos em grupo, saída com amigos.

O ponto chave dessa discussão é que a introversão passou a ser um estigma que precisa ser contornado a todo custo. Se você é um introvertido, encontre sua paz respeitando seu tempo e praticando seus dons, como persistência, tenacidade para resolução de problemas complexos, perspicácia, entre outros. Não perca energia e forças tentando ser alguém que você não é, querendo parecer um extrovertido espirituoso ou o centro das atenções. Seja você mesmo, não permita se violar simplesmente por apelo social.

Jung enxergava os introvertidos como “educadores e promotores de cultura”, que mostravam o valor da “vida interior de que tão dolorosamente carecia nossa civilização”. E então, por que não devemos aceitar as diferenças entre as pessoas e ressaltar as qualidades de cada temperamento?

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