Passiflora incarnata versus Valeriana officinalis em insônia por estado de hipervigilância do sistema nervoso central.
Insônia por hiperativação do sistema nervoso central é um quadro em que o principal obstáculo não é a ausência de cansaço, mas a dificuldade de transitar, com previsibilidade, do estado de alerta para o estado de repouso. O corpo pode estar exausto, porém permanece em vigilância, com ruminação, inquietação somática e sono fragmentado. Nesse contexto, a Naturopatia Clínica costuma trabalhar com um objetivo inequívoco: reduzir o estado disfuncional de hiperalerta e favorecer regulação neurofisiológica por meio de um plano integrativo, no qual a fitoterapia pode atuar como recurso adjunto, e não como solução isolada.
Duas plantas medicinais são amplamente discutidas para esse tipo de perfil: Passiflora incarnata e Valeriana officinalis. Ambas são tradicionalmente utilizadas como suporte para ansiedade e sono, mas não são equivalentes, nem em perfil clínico, nem em tolerabilidade, nem em precauções quando há uso concomitante de fármacos sedativos.
Quando a mente não desliga, investigamos o porquê
Antes de escolher uma planta, convém esclarecer o alvo clínico. Em geral, a hiperativação se expressa em três eixos principais.
O primeiro é cognitivo, com aceleração do pensamento e ruminação noturna. O segundo é autonômico, com inquietação, tensão e dificuldade de desacelerar mesmo em ambiente adequado. O terceiro é comportamental, com tentativas de compensação que perpetuam o problema, como permanecer longos períodos acordada na cama e reforçar a associação entre cama e vigilância.

Em um plano naturopático coerente, a planta é escolhida para modular um ou mais desses eixos, ao mesmo tempo em que se estruturam intervenções de base, como higiene do sono, regularidade circadiana e estratégias mente-corpo.
Passiflora incarnata
Passiflora incarnata, popularmente conhecida como flor do maracujá ou flor-da-paixão, costuma ser considerada quando a insônia vem acompanhada de ansiedade, hiperalerta e dificuldade de diminuir a agitação no fim do dia. Na literatura, discute-se sua ação por modulação do sistema GABA, o que oferece plausibilidade para efeitos ansiolíticos e sedativos leves em determinados perfis.
Há também estudos recentes descrevendo seu uso como coadjuvante em contextos de redução gradual de benzodiazepínicos, com hipótese de efeito modulador do sistema GABA e relato de papel temporário no manejo de sintomas como ansiedade e insônia. Esse ponto é relevante porque, em alguns casos, o paciente chega ao consultório já medicado e busca alternativas para melhorar o sono sem escalonar doses ou somar sedativos sem critério.
Em linguagem menos técnica, Passiflora tende a ser escolhida quando o problema principal não é apenas a dificuldade de dormir, mas desacelerar a mente com segurança, reduzir a inquietação interna e favorecer uma transição mais suave para o sono.
Valeriana officinalis
Valeriana officinalis, popularmente chamada de valeriana, é uma das plantas mais utilizadas como auxílio ao sono, embora a literatura apresente heterogeneidade de resultados em insônia, com revisões apontando limitações na eficácia clínica em alguns cenários. Ainda assim, há trabalhos clínicos recentes com extratos padronizados sugerindo melhora de parâmetros subjetivos e alguns parâmetros objetivos de sono em indivíduos com sintomas leves de insônia.
Do ponto de vista clínico, Valeriana pode ser considerada quando o foco está mais em latência do sono do que na manutenção do sono, sobretudo em quadros leves, com uma queixa mais centrada no adormecer. Ao mesmo tempo, é importante reconhecer que “mente que não desliga” pode ser expressão de ansiedade, depressão, burnout ou disfunção circadiana, e nesses casos a estratégia raramente é 100% eficiente apenas com um sedativo vegetal.
Por isso, a Valeriana officinalis funciona melhor quando o objetivo é facilitar o início do sono e reduzir a dificuldade de pegar no sono, desde que o restante do protocolo esteja alinhado com o padrão de hiperativação.
Qual fitoterapia escolher?
Uma forma prudente de diferenciar, em consultório, é observar qual componente domina o quadro. Se o componente dominante for ansiedade com hiperalerta e ruminação, Passiflora tende a se alinhar melhor ao alvo de redução de ativação, especialmente quando a pessoa descreve uma dificuldade persistente de desacelerar e manter a qualidade do sono, ou seja, é para quem acorda no meio da noite e tem dificuldades de retornar a dormir. Se o componente dominante for dificuldade de iniciar o sono em quadros leves e sem intensa agitação ansiosa, Valeriana pode ser considerada como alternativa, preferencialmente em extratos padronizados e com monitorização de resposta e tolerância.
Para utilização de extratos padronizados ou outras formas além da utilização de chás, recomenda-se procurar orientação profissional. Pois, a decisão não deve ignorar o contexto. Em Naturopatia Clínica, trabalha-se com individualização, verificação de segurança, interações potenciais, e definição de tempo de uso, evitando a lógica de uso indefinido sem reavaliação.
O principal cuidado com ambas as plantas, especialmente Valeriana, é o potencial de somar sedação com outros depressores do sistema nervoso central. Por exemplo, a Valeriana pode aumentar o efeito sedativo de álcool, benzodiazepínicos e narcóticos, e também pode interagir com alguns medicamentos e suplementos.
Em relação a interações metabólicas, uma revisão focada em valeriana sugere baixa probabilidade de interações clinicamente relevantes via CYP2D6 e CYP3A4 (enzimas essenciais do fígado e intestino, responsáveis por metabolizar grande parte dos medicamentos no corpo humano) em doses terapêuticas, embora destaque a relevância de interações farmacodinâmicas com fármacos que influenciam vigilância, como benzodiazepínicos. Isso significa que, mesmo quando a interação não altera de forma importante o metabolismo de um medicamento, pode existir amplificação de sonolência, redução de atenção e risco em atividades como dirigir.
Outras precauções essenciais incluem evitar autocomposição com múltiplos sedativos, atenção especial em gestação e lactação, e discussão cuidadosa em pessoas que utilizam psicofármacos, principalmente quando há histórico de efeitos paradoxais, sonolência residual ou instabilidade de humor.
O que costuma falhar quando a mente não desliga
Em muitos quadros, o insucesso não se deve à escolha “errada” de planta, mas à ausência de um eixo estruturante. Se não há regularidade circadiana, higiene do sono e um manejo mínimo de estímulos, a fitoterapia tende a ser usada como contenção pontual, e o organismo mantém o padrão de alerta como padrão.
Por isso, fitoterapia para hiperativação deve ser inserida em um plano que contemple rotina, sono, alimentação e práticas de autorregulação, com acompanhamento e ajustes. Por mais eficiente que seja, fitoterapia é ferramenta de apoio a um cenário mais abrangente. Afinal, ninguém pretende tomar para sempre fitoterápicos ou medicamentos alopáticos.
Se a insônia é frequente, associada a ansiedade intensa, episódios depressivos, uso de benzodiazepínicos ou outros sedativos, ou se já há prejuízo relevante à execução de atividades da rotina, vale conduzir a escolha fitoterápica de forma criteriosa e integrada. Na Naturopatia Clínica, o foco é construir um plano realista, com objetivo claro, tempo definido, monitorização de sintomas e integração com psicoterapia e psiquiatria quando indicado.
Sou Rosana Kalil, Naturopata Clínica. Acompanho mulheres que atravessam ansiedade, depressão, insônia, estresse crônico e burnout, estruturando um plano terapêutico integrativo orientado à regulação do sistema nervoso. Para avaliação individual e direcionamento terapêutico, entre em contato. www.rosanakalil.com.br – @rosanakalil.naturopata


